quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Vamos lá acabar com isto





Quando é para me ir embora, vou logo. Mando beijinhos, faço adeus, e aí vou eu. Não fico à entrada ou no patamar das escadas a despedir-me, a lembrar-me de todas as coisas que tinha para dizer e não disse.

Este blog anda moribundo e eu sou pela eutanásia. Foram uns bons dez (onze?) anos. Obrigada, pá.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A menina que só queria um piquenique

Na paragem do autocarro estava uma avó e uma neta. A avó muito gorda, de perna aberta, a ocupar o banco todo e a gritar com a neta para ela não pôr as mãos no chão nem nas compras que trazia.
- Já disse à mãe que gostava de fazer um piquenique neste jardim, disse a miúda apontando para a relva ali perto.
- A tua mãe tem duas folgas por semana, uma é para passar a roupa a outra é para limpar a casa, não tem tempo para essas coisas, disse a avó bem alto.
- Mas eu gostava tanto de passear só com a mãe e o pai, disse a miúda.
- Tens saudades, é? ripostou a avó carinhosa.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Luaty

Luaty. Luaty. O único nome na minha cabeça. Luaty a lutar. Luaty a morrer. Luaty sozinho. Luaty. Luaty.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Gatinhos no trombil ou como enervar-me em pouco actos

Pessoas que votaram no PAN; homens que mijam na rua em plena luz do dia entre dois carros; pessoas que tiram fotos do sushi comprado em buffets chineses e depois tiram fotos para pôr nas redes sociais como se aquilo não fosse uma merda; pessoas que votaram no PAN; mulheres que usam soutiens normais com tops de alças cruzadas ou de desporto; homens que cospem para o chão (e mulheres); os Nouvelle Vague; todos os concorrentes da Quinta. Todos com um gato nas trombas. 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Anda tudo a dar nas drogas

Pelo menos espero que seja essa a justificação para o que os homens que mandam neste país - aqueles que aparecem na comunicação social - andam a dizer. Depois do Portas a dizer que as mulheres têm de organizar a casa e pagar as contas aos dias certos (eu sei que era um elogio, mas não lhe saiu bem), do Passos Coelho a dizer que as mulheres que querem ter filhos para ajudar o país a crescer deviam ser apoiadas porque quem tem os filhos são as mulheres, é o Costa que cada vez que abre a boca não diz nada que faça sentido, parece que está a falar outra língua, e agora o dono novo da PT vem dizer que não gosta de pagar salários e que paga o mínimo que puder, pá? Mas o que é que se passa? É da água? É que eu nem sei o que diga, o que pense, parece que estou a ver uma rábula da revista, sempre à espera que entrem as bailarinas com plumas nas ancas para poder rir e respirar fundo porque, de certeza, isto é tudo a gozar.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Coração em chamas

Na acupunctura disseram-me que tenho fogo no coração. Achei tão dramático, romântico. Senti-me especial como se sentem as pessoas com coisas únicas, guardadas cá dentro e que ninguém sabe. Como a gravidez no início, em que a barriga não cresceu e ainda é um segredo.
Tenho o coração a arder e a queimar e deve ser isso que não me deixa estar satisfeita, nunca. Deve ser isso que me aflige e não me deixa contentar. É como se tudo fosse apenas um ensaio para algo maior que está para vir mas que depois não chega.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Kate Moss: porque devemos todos detestá-la

Não é inveja. A única inveja que senti dela foi quando ela andou com o Johnny Depp. E mesmo assim não era inveja, era outra coisa qualquer porque se me dessem a oportunidade de sacar o Johnny, eu recusaria.
A Moss tem uma cara de prisão de ventre que usa desde os anos 90 e que não há maneira de largar. Aquela boca entreaberta de quem ou tem dentes demasiado grandes ou é pouco esperta. Aqueles olhos sempre aborrecidos de quem acha que tem mais que fazer do que posar para fotografias - caralho, se queres fazer outra coisa põe-te nas putas, não venhas com má onda que eu só quero ver as roupas.
Antes da Kate Moss as modelos - supermodelos como lhes chamavam nos anos 90, apesar de não conseguirem voar - eram gajas que podíamos aspirar ser, mesmo que nunca lá chegássemos. Tinham mamas e ancas e pernas e rabos de mulher. Havia a Eva Herzigova, a Naomi Campbell, a Amber Valetta, todas malucas, todas boas. Mas depois chegou a Kate com aquele corpo de adolescente viciada em cocaína, sem mamas nem carne que se pudesse agarrar, e a indústria da moda começou a sua interminável guerra ao corpo feminino. As parvas das adolescentes impressionáveis tornaram-se anorécticas porque todos os dias eram confrontadas com um ideal de beleza estapafúrdio que a Moss personificava. Toda a mensagem era má, a começar pelo nome do estilo que ela personificava - heroin chic. Corpos franzinos, olhos esborratados, meias com buracos, pernas semi abertas sentadas no chão, boca aberta e olhos sem vida. Pelo amor de deus, Kate, vai-te lixar.
Mais de 20 anos depois, a Kate continua a mesma. Aquela tromba de frete, aquelas poses estúpidas, nem uma porra de um sorriso, raios a partam. Não chega já?

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Ensaio sobre o ar condicionado no trabalho

Nunca trabalhei num sítio onde não houvesse problemas com a porra dos ares condicionados. Ou porque era controlado por uma central mistério que, claramente, nos queria transformar em pinguins, ou porque tenho colegas que têm o termostato avariado e estão sempre com calor. Mesmo quando não está.
O nível de desconforto que o a condicionado me provoca é tão grande que só me apetece ter um ataque de nervos e desatar a partir tudo enquanto grito que já não aguento mais tanta pele seca, que assim não ganho para os cremes das mãos, que os meus olhos estão a arder e que não consigo tirar o caralho do casaco porque está frio. E eu não quero mais trabalhar com frio. Já chega. São muitos anos nisto. Estou farta desta merda e farta de ser a chata que se queixa porque o resto dos friorentos já desistiu. Rendo-me. Fiquem com a merda do ar condicionado ligado, sequem a pele à vontade, arrefeçam as vossas camadas adiposas que eu vou escrever para casa. Não nasci para sofrer. Todos os dias esta batalha, no Inverno mantas nos ombros - porque aparentemente o ar condicionado nos locais de trabalho só funciona para ar frio - e aquecedores colados às pernas. No Verão, casacos vestidos porque 25 graus na rua, já se sabe, é clima tropical. Puta que pariu esta merda. Foda-se pá. Para o conforto de uns, o desconforto de outros. Estou farta, caralho.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Nos anos 90

Nos anos 90 cosíamos triângulos de tecido nas calças para as transformarmos em boca de sino.
Nos anos 90 íamos à Loja do Velho, na Baixa, comprar calças à boca de sino. Nos anos 90 usávamos camisas de flanela à cintura e pintávamos o cabelo de verde e azul e vermelho como o Kurt Cobain.
Nos anos 90 as canções eram todas muito profundas, cheias de ameaças de suicídio, revoltas contra a sociedade, o amor, os pais, a moral e era tanta profundidade que éramos todos deprimidos.
Nos anos 90 fumavam-se charros atrás do pavilhão. Nos anos 90 dizíamos ganzas.
Nos anos 90 ainda havia o Rookie e o Rockline. Nos anos 90 ia ao Rockline mas nunca fui ao Rookie e nem sem bem como se escreve.
Nos anos 90 o país despertou para o surf e havia o Portugal Radical. Nos anos 90 a Rita Seguro era gira e a Raquel Prates também porque quase não usavam maquilhagem e não fazia mal.
Nos anos 90 o Kurt Cobain matou-se e chorámos todos muito. Nos anos 90 começou o flagelo das boy e girl bands. Nos anos 90 as cantoras ainda não se despiam todas porque cantar era mais importante mesmo que a música não prestasse. Nos anos 90 a Inglaterra apresentou-nos a Brit Pop e os irmãos Gallagher.
Nos anos 90 usavam-se uns fios pretos com retorcidos tribais muitos rentes ao pescoço. Nos anos 90 usavam-se Airwalks, Redleys e Yellow Cabs de lona. Usavam-se Doc Martens e Rangers. Nos anos 90 íamos à feira da ladra comprar mochilas e sacos a tiracolo na loja das cenas militares. Nos anos 90 os Bollycaos davam cromos do Beverly Hills. Nos anos 90 dava o Beverly Hills 90210 e o Luke Perry era o gajo mais giro que alguma vez tínhamos visto.
Nos anos 90 morreu o Brandon Lee, filho do Bruce Lee, dando origem a um mito de maldição familiar quando na verdade um morreu de doença e o outro de um acidente parvo.
Nos anos 90 o Ediberto Lima ainda traduzia programas de animais e a Ana Malhoa ainda não tinha mamas.
Nos anos 90 usavam-se as calças largas às riscas que os peruanos vendiam nas feiras. Nos anos 90 a Loja das Viagens era a cena mais fixe de decoração que havia. Nos anos 90 toda a gente tinha espanta espíritos e caça sonhos pendurados no quarto.
Nos anos 90 o Gameboy era espectacular.
Nos anos 90 usávamos símbolos da paz ao pescoço, presos num cordão preto rente ao pescoço. Nos anos 90 usávamos relógios Swatch e tops de manga curta a mostrar a barriga, com coisas escritas tão estúpidas como "100% girl" ou "I love boys".
Nos anos 90 apaixonei-me pelo Axl Rose, pelo Bon Jovi, pelo Joe Perry (Aerosmith), pelo Eddie Vedder, pelo Brad Pitt e pelo Johnny Depp.
Nos anos 90 vi o unplugged dos Pearl Jam mais de dez vezes com o coração aos pulos. Nos anos 90 dancei ao som de Feijão com Arroz da Daniela Mercury na primeira passagem de ano que passei com amigos. Nos anos 90 passei a primeira passagem de ano sem adultos por perto. Nos anos 90 apanhei a primeira bebedeira e vomitei.
Nos anos 90 Gold Strike era bom.
Nos anos 90 havia super modelos com boas pernas e mamas mas depois apareceu a Kate Moss e estragou tudo.
Nos anos 90 tirei a carta e senti-me livre. Nos anos 90 decidi o que queria fazer na vida sem saber que ninguém iria dar valor ao fruto do meu trabalho (e de dos outros como eu).



terça-feira, 1 de setembro de 2015

O dia em que levei um estaladão da minha filha

Caralho, que ainda ontem estava a fumar uma ganza (um charro, pá) na varanda do meu quarto com as minhas melhores amigas e agora de repente tenho de explicar a um ser pequenino que não se bate na mamã que por acaso sou eu?
Disse-lhe que eram horas de ir jantar. Estava sentada no sofá a ver televisão e respondeu-me "não", palavra que repete a toda a hora seja qual for a pergunta. Sentei-me ao lado dela e repeti a ordem. Bateu-me no ombro, ao de leve, a mãozinha primeiro toda para trás para ganhar balanço, naquele gesto amuado, a cara fechada, boquinha chateada, pimba. Levantei a voz, ligeiramente, zanguei-me, disse não e antes que tivesse tempo de pensar levei com uma bofetada nas trombas que até fiquei sem fala durante três segundos. A cara dela zangada, não queria porque não queria jantar, não queria deixar a televisão e os desenhos animados. As sobrancelhas carregadas, a mão no ar, a cara de quem acha que não tem de obedecer a nada, e zás, o estalo.
O meu cérebro a funcionar mais depressa, não foi para isto que me inscrevi, ora que porra, esta pirralha desgraçada, espera aí que já te digo. Transformei-me num Hulk controlado, fechei o computador com um estrondo, acabou-se, gritei eu, ela a chorar de forma imediata, desesperada, arrastei-a por um braço até ao quarto e sentei-a no chão de frente para a parede branca e entediante, estás de castigo, de castigo. Ela a chorar como nunca a tinha visto, lágrimas a correr, vermelha como um tomate, soluços atrás de soluços. Assim ficou, a agressora de palmo e meio. Tentou levantar-se passado uns segundos, zanguei-me, mandei sentar-se, disse que não e não e não, abanava a cabeça, a chorar mais e mais, mas sentou-se, só te levantas quando eu disser, ouviste? Antes que voltasse a levantar-se e eu perdesse a autoridade, cabrões dos putos que são como os cães nisto da obediência, disse para vir ao pé de mim. Abraçou-me, a chorar, a chorar. Expliquei que não se batia, que era feio, não se bate na mamã, pede desculpa disse eu, um beijinho dela e um abraço, lágrimas secas com as minhas mãos e tudo bem. Mais beijinhos e um jantar todo comidinho que foi uma beleza. Hoje de manhã apontou para o sítio onde tinha estado de castigo e disse "não, menina Amália não tau tau." Espertalhona.