quinta-feira, 16 de abril de 2015

As crianças são pessoas horríveis*

Tem um narizinho pequenino, amoroso, tão fofinho. Uma boquinha delicada, de lábios bem desenhados, dentes pequeninos com um espacinho entre os da frente como eu quando era pequena.
Tem umas mãos e uns pés pequenos que me dá vontade de os comer, umas perninhas de alicate macias e umas costas e ombros que me comovem. E a pancita? Não há palavras para descrever. Os olhos enormes e redondos de pestanas compridas a olhar para mim, o sorriso malandro, os caracóis despenteados. Uma falsa. Acha que me pode conquistar só com os atributos físicos e com aquela voz pequenina que me enche o coração de alegria.

A minha filha é um monstro horrível que se está nas tintas para mim. Tanto se lhe dá se o meu braço está dormente de ficar pendurado na cama de grades porque a menina precisa de companhia para adormecer de todas as sete vezes que acorda de madrugada. Tanto se lhe dá se estou cansada, a morrer de sono, com frio ou dor de cabeça.

A minha filha quer lá saber se eu estou prestes a perder a paciência quando sou obrigada a repetir dez vezes que não, “não podes pôr a comida do cão no vaso da planta/bolsos/boca/chão/nariz”. Ri-se e continua a fazer disparates enquanto olha para mim, divertida, não sei se com o meu olhar incrédulo se com o meu tom avermelhado raiva.

A minha filha não podia estar-se mais a cagar para mim quando me chama a cada dois minutos e me diz “mão” que é código para “dá-me já a mão antes que desate a chorar mesmo que estejamos dentro de casa e não haja estrada para atravessar e estejas a tentar fazer o meu jantar/almoço/lanche.”
A minha filha não quer saber se ao fim de semana eu mereço preciso de um pequeno-almoço calmo a ler o meu livro enquanto enfardo as melhores coisas que consigo arranjar em casa às nove da manhã: ela quer ficar ao meu colo a enfiar os dedos nas minhas torradas e fruta e não há espaço para negociações. Nem para o meu livro. Ela faz de propósito quando aos dias de semana se recusa a acordar antes das 9h e ao fim-de-semana salta da cama às 7h30.

A minha filha não se comove com o sono que me ataca à tarde nem se deixa convencer com um “vamos fazer ó-ó as duas, na cama da mãe”. Grita “yoyo” que é código para Pocoyo e pede o iPad para ver os episódios e nem os olhos posso fechar porque ela passa o tempo a tocar no ecrã e a pôr aquela merda na pausa e depois não sabe carregar no play. Quer dar cambalhotas e atirar-se para cima de mim, encher-me a cara de baba porque acha divertido.

Ela quer lá saber se estamos atrasados para sair quando lhe pedimos para vestir o casaco e ela foge e diz que não e cruza os braços. O mesmo se aplica a pôr calças e meias, peças de roupa que ultimamente rejeita. Não podia estar-se mais nas tintas por ter transformado a hora de vestir numa espécie de wrestling patético alternado com tentativas desesperadas de a distrair, seja com canções infantis ou com histórias inventadas que metam as palavras “mamã, papá, cão, avô e avó”.
Ela não quer saber se me apetece mais ver o “Lei e Ordem, unidade especial” ou a “Miss Marple” do que a porra do Piggy, dos Heróis da Cidade, do Ruca ou a Ovelha Choné. Ou se não me apetece cantar pela 34ª nesse dia “a barata diz que tem…”.

Ela simplesmente não quer saber. Deve ser bom viver assim com total omnipotência. Pena que não se irá lembrar destes tempos quando for adolescente e esta sensação de omnipotência for substituída pela de impotência face à tirania parental, castigando-nos com esgares de desdém e olhares acusatórios até quando espirro. É que mal posso esperar.

*publicado no A Mãe é que Sabe


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Alice Vieira

Desde pequena que passo muito tempo em casa. Sempre troquei a rua e as brincadeiras com os outros meninos pela segurança das paredes de casa e pela companhia dos meus avós.
O que os meus amigos confundem com velhice precoce, ao chamar-me avó porque não gosto de sair, é na verdade uma enorme tendência anti-social, falta de paciência para os outros, desconforto no meio de muita gente. Insegurança, mariquice.
Como passava muito tempo em casa, e uma pessoa também não nasceu para meditar e atingir o Nirvana, lia muito. Desde que aprendi a fazê-lo que nunca mais parei. A primeira vez que li um livro de Alice Vieira fiquei triste. Não me lembro que livro era mas lembro-me da sensação de tristeza. Hoje sei que não era tristeza, era uma emoção tão forte, um misto de admiração, alegria por ter descoberto um livro assim, o desejo de um dia escrever tão bem como ela, contar histórias tão bonitas. Confundi com tristeza o sentimento mais forte que tenho, e aquele em que se transformam as minhas emoções quando me vejo assoberbada. Mesmo que seja uma onda de alegria, transforma-se sempre em tristeza e dor. Não sei porquê.
A Alice Vieira viveu muitos anos no meu quarto, nas minhas prateleiras, até eu sair de casa e a deixar ao cuidado da minha mãe. Lembro-me uma vez em que fui à feira do livro e ela lá estava a autografar os seus livros. Não tive coragem de lhe pedir que me autografasse o meu. Não consegui chegar-me ao pé dela nem dizer-lhe que ela era tão importante como os meus pais, naquela altura da minha vida.
Há uns poucos anos tive a sorte de a entrevistar. Uma entrevista de vida que me encheu o coração de alegria que desta vez não se transformou em dor. Alice foi suficientemente generosa para partilhar comigo a sua vida, a sua casa, alguns segredos e tantas gargalhadas que nem parecia trabalho. Como bónus ainda recebi um postal, escrito por ela, a agradecer-me. Tinha gostado do resultado final do meu trabalho. O fotógrafo que foi comigo sabia da minha admiração e tirou-nos uma fotografia juntas. Eu muito alta, ela muito baixinha, as duas a sorrir, eu com alguma vergonha, ela na boa. Não sei o que foi feito dessa foto.
Quando a Pólo Norte me convidou para ir à tertúlia com a Alice Vieira, no Bairro do Amor, fiquei tão feliz que liguei à minha mãe a pedir-lhe que metesse num saco todos os meus livros dela. Já lá estão, no saco, à espera de um lugar lá em casa. Anos e anos depois vamos voltar a viver juntos. Quero-os por perto para depois os passar à minha filha, assim mesmo, de páginas amareladas e ligeiro cheiro a mofo e pó. Dia 18 de Abril, às 10h, lá estarei. Quem sabe se desta vez tenho coragem para lhe pedir um autógrafo.





terça-feira, 7 de abril de 2015

O mundo está cheio de merdas sem jeito nenhum

- Horários de trabalho: o rendimento deveria ser contabilizado através de objectivo diários. Não importa se alcançados em cinco ou em duas horas. Pessoas com mais tempo = pessoas felizes = mais e melhor produtividade.
- Sapatos de plataforma. Por favor parem de os ressuscitar.
- Calças de cintura descaída. Não há palavras para explicar a péssima ideia que isto foi (e ainda é).
- Corridas.
- Granola. Onde é que aveia tostada, com frutos secos e sementes de pássaro é bom? Só os hamsters gostam dessa merda. Ao menos cozam a aveia em leite, açúcar, canela e uma casca de limão e faz de conta que estão a comer arroz doce.
- Sumos verdes. Digam à minha avó que couve crua é que é bom e vão ver o que acontece.
- Meias com dedos. Somos gueixas, é?
- Griponal, C gripe e fins. Metam-se na cama e tomem Benurons.
- Seitan. É pão, mas em horrível.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Esta coisa das corridas está a dar-me cabo dos nervos

Não aguento mais fotos de corridas, de percursos, selfies transpiradas, número de quilómetros percorridos, Lisboa à noite, com chuva, sem chuva, com rio, sem rio. #derepentesomostodosatletasmasganharmedalhasasérioéocaralho

terça-feira, 31 de março de 2015

Como os meios de comunicação protegem os homens do período, mamas com leite e pêlos no corpo

Uma artista indiana/americana, poetisa e afins, publicou no Instagram uma foto sua onde se vê uma mancha do período nas calças e na cama.  Essa foto faz parte de uma série de imagens que Rupi Kaur tirou de momentos relacionados com a mestruação, desde dores de barriga, a ter de mudar o penso na casa de banho. As fotos são lindas e basicamente mostram uma coisa pela qual todas as mulheres deste mundo passam uma vez por mês. Ora o Instagram achou que a foto violava os termos e condições da rede social e apagou a foto. And all hell broke loose. Rupi, que ficou aborrecida,  respondeu à altura e tocou num ponto assustador: fotos de mulheres ou de miúdas menores em roupa interior e poses sexys, de mamas quase de fora e pipis depilados, é ok. Pequenas manchas de período nas calças e cama, não, que nojo.
Este artigo diz tudo: "Os homens cresceram a acreditar, graças à cultura pop e à publicidade, que os corpos das mulheres existem para eles e se tiverem que ver um corpo de mulher que não seja magro, sem pêlos e pronto para ter sexo - tragam os sais de cheiro."
O pior é que acho que muitas mulheres não pensam nisto. Não lhes ocorre. Esta forma de repressão, de misoginia e desrespeito pelas mulheres está tão enraizada que as próprias mulheres condenam e criticam este tipo de imagens. E fico com pena porque tenho a certeza de que se nos uníssemos, se fossemos gentis umas com as outras, solidárias, bondosas, irmãs, podíamos mandar nesta merda toda e acabar com esta brincadeira. Somos mais, somos tantas. E, no entanto, mais depressa chamamos porca ou puta à colega do lado do que a defendemos se alguém lhe fizer mal.
O Instagram pediu desculpa depois de muitos protestos. Muitas mulheres se uniram e juntaram a sua voz à de Rupi e juntas conseguiram que o Instagram voltasse atrás na decisão inventando que foi tudo um mal entendido.
"As for the people who are scandalized by women’s bodies and their natural functions: You don’t have to “like” it, but you will have to live with it."

sexta-feira, 27 de março de 2015

Vencedora do passatempo La Redoute

A felizarda que vai levar para casa um conjunto bonitão dos meus é............ (rufar de tambores) a Inês Ferreira! Parabéns, pá. Fica atenta à tua caixa de entrada, sim?

quarta-feira, 25 de março de 2015

Irritação

Os putos do colégio francês nas Amoreiras e os spots publicitários em que dizem encarnado em vez de vermelho. 

terça-feira, 24 de março de 2015

Fazer uma família*

Não é difícil ter um filho. Dar-lhe colo, alimentá-lo, ensinar-lhe a fazer o símbolo do rock com os dedos. Adormecê-lo, levá-lo a passear, dar-lhe banho e ter a certeza que tem as orelhas limpas.
Difícil é transformarmo-nos numa família. Uma família a sério, que come à mesa toda junta, que vai a sítios, que passa férias, que vai às compras ao supermercado. Porque no início despacha-se a criança, dá-se o banho, o jantar na cadeirinha alta e cama. Só depois é que tratamos de nós. Faço o jantar, ele põe a mesa e passeia o cão. Sentamo-nos a comer, a ver televisão e a conversar.
Tudo gira em torno dela, fazemos o possível para que ela esteja satisfeita, para que durma as horas que é suposto, para que coma sempre a horas. Não almoçamos fora ao fim-de-semana como gostaríamos porque ela tem de almoçar e dormir a sesta. Não a maçamos com idas ao supermercado, a menos que seja coisa rápida, tratamos a nossa filha como se fosse uma visita de cerimónia e parece que estamos sempre desejosos que a visita vá dormir para que possamos estar descansados. Mas por outro lado é uma chatice quando a visita dorme porque depois temos de esperar que acorde para podermos sair de casa. Só que a visita veio para ficar e a vida em família nem sempre cumpre horários nem regras. E a família é constituída por três pessoas e não duas. E essa dinâmica é, para mim, o mais difícil. Vê-la como parte da família em vez de um ser planeta cujos satélites somos nós. Encontrar-me no meio desta confusão que é ter uma criança em casa, de ser mãe, de ter de dizer que não, de ter de dançar em vez de andar porque a minha filha acha que vive num musical da Broadway e que eu sou uma jukebox.
De repente, comer ao mesmo tempo que ela – ou ela ao mesmo tempo que nós, à mesa – tornou-se num dos maiores desafios da nossa vida familiar. Tão grande que ainda não conseguimos atingir o objectivo. Também ainda não dominamos a mestria de estarmos juntos também quando estamos com ela – normalmente está um com ela e o outro a tratar de assuntos, ou estamos os dois virados só para ela porque a menina precisa de atenção a todo o instante e eu não quero que ela cresça com falta de confiança.

Não é difícil pôr um ser humano no mundo, difícil é deixá-lo fazer parte da família. Isso e conseguir que tenha as unhas limpas. 

* Ontem fui pregar para a Mãe é que Sabe.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Cá estamos

Estava aqui a tentar lembrar-me de quando era mais nova e não tinha dores no corpo. Agora tenho um colchão que me quer matar durante o sono e as dores no corpo são mais que muitas e tenho uma filha que apesar de ser levezinha gosta bastante de andar ao colo e às cavalitas e parecendo que não mói os ombros e os braços e toda eu sou dores.
Estava a tentar lembrar-me de quando tinha muitos dias de férias seguidos e não punha protector solar no Inverno. De quando a minha maior preocupação era ter pelo menos 10 numa frequência.
Estava a tentar lembrar-me de quando ia ao cinema uma vez por semana com a Maria. Quando todas os domingos víamos o Conta-me como Foi, mais a Mariana, embrulhadas em edredons e a comer M&M's.
Estava a tentar lembrar-me de quando passava horas numa esplanada a conversar e a fumar cigarros. De quando íamos de férias todos juntos para a Costa Vicentina, foi só há dois anos e parece que passou uma eternidade, e agora parece impossível de voltar a acontecer.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Quando parecer demasiado, lembrem-se disto*

- A terra gira a  1,674.4 km/h  sobre si mesma e demora 24 horas a fazê-lo. A nossa galáxia (Via Láctea) também está em movimento.
- A nossa galáxia está em rota de colisão com outra galáxia (Andrómeda). Estamos a dois milhões de anos luz de distância. Essa colisão pode resultar num imenso buraco negro.
- O sol é apenas uma estrela como as outras e como as estrelas também ele vai morrer numa incrível explosão e consequente buraco negro.** Mas antes de explodir vai matar toda a vida na terra à medida que for aumentando. Isto se não morrermos antes com o choque com a Andrómeda.
- A lua é o resultado de uma colisão entre a terra e um corpo com o tamanho de Marte. Aquele pedaço ficou para ali, suspenso, a olhar para nós. Não há qualquer razão para que isso não volte a acontecer.
- Existem entre 200 a 400 mil milhões de estrelas. Não no universo inteiro, apenas na nossa galáxia. - - Se cada uma dessas estrelas tiver um sistema solar como o nosso - ou maior - significa que é idiota pensar que estamos sozinhos. 
- Existem umas coisas chamadas Wormholes. Nunca ninguém lá entrou mas pensa-se que se o fizerem poderão viajar para outra galáxia. Há quem defenda que foram criados por seres mais inteligentes que nós como meio de transporte.

* e a Primavera chegou.
** o sol não se transformará num buraco negro mas sim numa estrela anã branca. Obrigada às leitoras atentas e ainda mais nerds do que eu. Nerds rulam.